Sociedade Brasileira de Biometeorologia - Em sua opinião, qual o papel da biometeorologia para a produção animal? Evaldo A. Lencioni Titto - O papel da biometeorologia é fundamental. O estudo das relações dos animais e sua fisiologia com o ambiente, principalmente o ambiente físico, neste caso representado pelo clima é essencial, não só na área das mudanças climáticas, mas as influências nas diferentes regiões climáticas do planeta, e no nosso caso, nos trópicos, e para a melhoria da produção animal, utilizando o genoma de animais adultos oriundos de clima temperado, exemplo da bovinocultura de corte, leiteiro, suinocultura e etc. Também indispensável para as áreas de suporte nutricional, genética. SBBiomet - Visto que o último congresso de biometorologia teve como tema mudanças climáticas, como você vê a influência da mesma na biomassa, no reino animal e humano?
Evaldo - No caso da biomassa, a mídia já está dando ampla cobertura ao tema como, atualmente, as chuvas de verão. O ser humano agrediu de tal maneira a crosta terrestre que no ano passado pudemos encontrar peixes mortos nos igarapés e riachos da amazônia, pois estavam secos, sendo que são lugares onde há alagamento por todo o ano devido à grande quantidade de chuva, 3000 ml ao ano. Outro exemplo é o problema da região do semi-árido nordestino que é fruto da exploração indevida de terra por parte dos colonizadores, pois desmataram toda a área e utilizaram para a monocultura de cana-de-açúcar, desgastando o solo em médio e longo prazo, modificando a biomassa local. No reino animal as mudanças climáticas estão sendo sentidas pelo mundo todo, como as ondas de calor na Europa que causaram grande índice de mortalidade de vacas e animais do tipo, também em Nova York pudemos observar esses dias que em pleno inverno havia pessoas tomando sol no Central Park, época que deveria estar nevando naquela região. Outra preocupante área influenciada pelas mudanças são os recursos hídricos que estão acabando e a população não parece ainda conscientizada do problema. SBBiomet - Para o Sr., qual a importância da veiculação da biometeorologia na mídia, como no caso, a internet? Evaldo - É fundamental, pois infelizmente, muitas escolas agrárias que estudam os animais e as plantas, não têm a “cadeira”, aqui na Esalq tem, em Pirassununga também temos na área de zootecnia, na veterinária. Hoje eu conto com 9 orientados de mestrado e doutorado, há dez anos atrás eu não podia pretender ter mais de dois deles, ou seja, os núcleos estão crescendo, como no Nupea, o núcleo de pesquisa em Jaboticabal e outros na Unicamp e Pirassununga. Com a maneira que a demanda de informação imediata num país de proporções continentais como o nosso cresce, a veiculação das nossas idéias, pesquisas e resultados na mídia eletrônica é essencial. Nós já estamos atrasados. SBBiomet - Durante as suas gestões como secretário e vice-presidente, quais foram os principais progressos da Sociedade Brasileira de Biometeorologia? Evaldo - Nós tivemos algumas dificuldades devido a uma dispersão das unidades, com Roberto Gomes da Silva que estava em Jaboticabal e agora está no nordeste, Flávio Baccari que estava em Botucatu e se aposentou e foi para Londrina e Orlando Barbosa que está em Maringá. Em 1995 em um gesto de ousadia no primeiro congresso de biometeorolgia na Brasil, o professor Roberto Gomes da Silva propôs a criação da Sociedade Brasileira de Biometeorologia e nós decidimos por aclamação a criação da sociedade, que foi a Ata de setembro de 1995. Porém, com a vida atribulada de todos os que integravam a sociedade devido à criação de grupos de pesquisa e consolidação dos núcleos, não houve muito tempo para dedicarmos à sociedade, e publicamos apenas um editorial e boletim, mas conseguimos manter a parte burocrática em dia na medida do possível, e depois do último congresso conseguimos mandar toda a papelada já organizada para o Iran, organização feita pelo Orlando com a minha ajuda. Ampliamos, também, o quadro de associados, porém não regularizamos as contribuições mensais. Enfim, mantivemos a sociedade em um crescimento lento para na hora que chegasse o momento certo de ela expandir de vez. SBBiomet - Quais as suas expectativas em relação a atual gestão, sob a presidência do prof. Iran? Evaldo - Esta gestão tem tudo para tirar o atraso acumulado nesses dez anos de consolidação, pois o Iran já tem um núcleo formado e toda a parte formal da sociedade já está pronta, o primeiro passo já está sendo dado com a parte da comunicação, depois a regularização na área da contribuição dos associados. A partir de agora a sociedade vai dar o que falar! SBBiomet – O Sr., está desenvolvendo algum projeto na área biometeorológica atualmente? Evaldo - Eu tenho, hoje, nove orientados como disse, fora isso, tenho uma linha de trabalho com o Ernani, físico da Fzea, para o desenvolvimento de equipamentos telemétricos para a medição fisiológica dos animais, com uma grande interface com o politécnica, Ciagri e com o Iran, esse projeto caminha a passos lentos porém firmes, a maior dificuldade está na parte técnica, com a ultilização de chips. Nos projetos de pós-graduação, eu tenho o projeto em ambiência de bovinos de corte, teste de tolerância ao calor desenvolvido pelo professor Baccari. Na área de ambiência de bovinos é basicamente testes de sombra em pasto e em confinamento, passando pela área de comportamento dos animais. Com bovinos de leite as pesquisas estão em franco andamento com os projetos de iniciação cientifica, mestrado e doutorado que estudam a parte física do ambiente e parte fisiológica das vacas de alta produção leiteira. Temos dois grandes projetos em andamento na área de ovinos, um de mestrado e outro de doutorado, o de mestrado é sobre o comportamento materno-filial, que visa estudar etnologicamente o cuidado da mãe ovelha para com o seu filhote, o de doutorado está em fase final e abrange a ambiência do ovino. Com eqüinos temos um trabalho sobre a termo-regulação em cavalo de enduro. Iremos também retomar uma linha de estudo com búfalos sobre o comportamento deles em pasto com sombra o água para a imersão. SBBiomet - Como o Sr. visualiza os estudos biometerológicos, envolvendo toda a sua multidisciplinaridade , em dez anos? Evaldo - Daqui a dez anos eu espero ver o pessoal que está se formando em mestrado e doutorado conosco, já em franca atividade como docentes e pesquisadores, com resultados importantes como os quais já vemos no caso de sombreamento ao pasto e nas pesquisas do Nupea. Dentro de uma década eu espero que os mais jovens estejam dentro de uma sala monitorando os animais e o ambiente pelo computador por telemetria, assim como é feito na Fórmula 1, acredito que até em menos de dez anos possa chegar a tal resultado, e anseio que isso dissemine e torne-se acessível para o país e para o mundo, e que nós possamos compreender melhor as necessidades dos animais. Também quero ver a pecuária crescer, estando perto dos animais, do cheiro e do ruído deles, pois é onde eu gosto de estar e estudar. Evaldo atua como professor e pesquisador da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da Usp, Pirassununga-SP. |