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Entrevista: Alfredo Manuel Franco Pereira, professor da Universidade de Évora PDF Print E-mail

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 Alfredo é professor do Departamento de Zootecnia da Universidade de Évora – Portugal. Pesquisador na área de bioclimatologia animal, já publicou trabalhos sobre tolerância térmica de bovinos, bubalinos nas regiões de clima mediterrâneo e tropical.

 


Sociedade Brasileira de Biometeorologia - Quais as diferenças básicas na criação de bovinos na zona tropical e mediterrânea pela perspectiva da biometeorologia?


Alfredo Manuel Franco Pereira  - Ao contrário do que poderia pensar à priori, em clima mediterrânico é possível encontrar com muita frequência verões com temperaturas radiantes muito elevadas. Por vezes, até superiores às encontradas em clima tropical. Resulta daí que também os nossos animais podem apresentar intensidades elevadas de estresse térmico por calor. Talvez a maior diferença que exista entre os dois tipos climáticos seja o fato de em clima mediterrânico as maiores temperaturas ocorrerem na estação seca (normalmente os entre Junho e Setembro as chuvas são residuais ou inexistentes). Deste fato, comparativamente ao clima tropical, resultam algumas vantagens e alguns inconvenientes. Das vantagens podemos salientar que em muitas situações as amplitudes térmicas entre o dia e a noite podem com maior probabilidade (mas nem sempre) permitir uma recuperação mais ou menos satisfatória do estresse térmico por calor ocorrido durante o dia, permitindo dissipar o calor armazenado. A desvantagem principal é que nesta altura do ano, as pastagens estão secas, com carência proteica evidente e apresentam-se mais calorigénicos dificultando a gestão do calor endógeno produzido pelo animal.

 

SBBiomet. - Nos pastos brasileiros existem problemas relativos ao estresse térmico dos animais, e essa situação pode ser driblada pelo sombreamento, áreas de imersão em água, assim como você cita em seus trabalhos. Quais são as problemáticas apresentas na região mediterrânea e como são sanados?

 

Alfredo - O sombreamento é na verdade uma arma poderosa para fazer face a níveis elevados de temperatura radiante e ao estresse térmico dos animais e que também já é  desde há muito tempo utilizada de forma generalizada em clima mediterrânico. Na verdade, uma grande parte dos sistemas de produção em clima mediterrânico tem por base modelos silvopastoris (Montado ou Dehesa em Espanha), com base em árvores do género Quercus. A presença de árvores nestes sistemas confere várias vantagens na manutenção da bioestrutura e humidade do solo, na incorporação de matéria orgânica e na fertilidade e também num conforto extra para os animais. Uma árvore árvore de tamanho médio permite pode interceptar cerca de 45-65% da radiação solar, o que origina um benefício evidente no conforto térmico dos animais, com vantagens produtivas que podem variar entre os 10 e os 20%. Dependendo da tolerância ao calor das raças presentes e da qualidade do sobreamento.

 

SBBiomet. - Sobre o seu projeto mais recente, “Estudos da caracterização genética e fisiológica da adaptação de ovinos à restrição alimentar”, qual é o alvo visado pelo estudo? Conte-nos como que está sendo feita essa pesquisa.

 

Alfredo - O estudo referido é da responsabilidade do Instituto de Investigação Científica Tropical e tem como responsável o Prof. Alfaro Cardoso. O nosso estudo visa contribuir para a identificação e caracterização de genes envolvidos em sistemas de poupança energética e azotada relevantes na preservação da condição corporal e no sistema imunitário de ovinos "adaptados" a condições de restrição alimentar sazonal, incluindo também o estudo de perfis enzimáticos e hormonais envolvidos naqueles sistemas de retenção energética e azotada.

A relativa resistência de raças locais a doenças endêmicas e a períodos de restrição alimentar devidos a secas sazonais, são perfis condicionados a vias metabólicas específicas. Estas permitem, entre outros efeitos, a existência de mecanismos de poupanças azotada e energética que previnem perdas significativas de massa corporal em condições severas de restrição alimentar e permitem o desenvolvimento de sistemas imunitários específicos que diminuem ou impedem os efeitos de doenças endêmicas. Na verdade, animais que melhor gerem a carência alimentar e/ou hidríca e que apresentam uma melhor recuperação dessas situações desfavoráveis, apresentam vantagens comparativas em regiões em que a quantidade e a qualidade de alimento apresenta uma marcada sazonalidade. Como consequência estes animais têm maior probabilidade de expressarem o seu potencial genético e exibir níveis superiores de eficiência bioeconômica. 

 

 
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